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CONTOS


O pianista
ou
Um bom motivo para ser músico de jazz

Alexandre Magno Alves
Belo Horizonte/MG.


O teatro estava lotado e as cortinas ainda não haviam sido levantadas. Num canto do teatro uma senhora emitia suspiros de prazer. Iria ser a primeira vez que veria o grande pianista. O som das conversas enchia o lugar.

As cortinas se abrem. O pianista, um homem magro, com cabelo milimetricamente penteado e óculos de aro, subiu ao palco com passos pequenos e incertos. Os aplausos, por um momento, parecem assustá-lo. Com um pequeno gesto cumprimentou a platéia que o aplaudia entusiasmada. Olhando de perto, muito perto, tínhamos a impressão de que, por um segundo ou menos, aparentemente ele não sabia o que fazer ali. Um leve calafrio percorreu seu corpo. Deslizando os dedos levemente pela borda do piano, sentou-se. O silêncio inundou a sala.

O pianista respirou fundo, fechou os olhos e suas mãos tocaram o teclado. Primeiro um som doce e frágil, como gotas de chuva. Depois, a música foi se tornando mais vigorosa. Os críticos preparavam-se para escrever que aquela fora sua melhor apresentação. A senhora num canto do teatro experimentava um prazer indescritível, a música era uma carícia em corpo; foi com espanto que ela se deparou desejando o pianista.

O som do piano enchia a sala quando um silêncio constrangedor tomou conta dela. Foi como se o tempo parasse por um segundo. O queixo da mulher pendia debilmente. Alguém tossiu, mas isso não tinha importância. O pianista no meio da terceira peça, no último movimento, esqueceu a música. Sentado com as mãos paralisadas sobre o último acorde que havia tocado, sentia seu rosto incendiar, permanecia com os olhos fechados, sem ter coragem de abri-los. Se pudesse fechar seus ouvidos de alguma forma assim como se fecham os olhos, ele o faria. Vasculhou seu cérebro em busca do resto que faltava da música, mas foi em vão. Num momento extremo de desespero, desejou ser um músico de jazz, pois aí poderia improvisar até o final.

Alguém piedosamente fechou as cortinas. O burburinho diminuiu um pouco, mas o pianista permanecia catatônico com as mãos sobre o teclado. Era uma escultura e não poderia ser retirado de onde estava. Sentiu uma mão sobre seu ombro. Lentamente abriu os olhos e parecia estar saindo de um sonho. O rosto amigo, com um sorriso que era um misto de embaraço e compreensão, estendia-lhe a mão. Segurou-a mecanicamente e deixou-se levar.