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Sarapatel dos Estetas
 
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Futebol: o banco de reservas
 
Alexandre Magno Alves
Belo Horizonte - M.G..
 
 
 
Crônicas  Não vamos falar dos gramados, das tardes ensolaradas de domingo, dos dribles desconcertantes, dos craques que fazem da bola 
sua escrava e, ao mesmo tempo, amantes indescritíveis, uma paixão que parece consumir à ambos, ou seja, não vou falar da glória 
do futebol. Não! O gol não será o alvo de nossas vistas inebriadas.  

Portanto, convido o senhor que está lendo esta coluna enquanto o jogo prossegue logo ali adiante, um tanto quanto enfadonho, no 
qual um craque qualquer não está em sua noite mais inspirada e ele e a bola parecem inimigos mortais. Convido o senhor a baixar 
um pouco mais o olhar e observar o banco de reservas.  

Viu?! Pois é, lá está ele impassível e sereno, "deitado em berço esplêndido", mas ao mesmo tempo é um lugar obscuro. O futebol 
tem dessas coisas ele faz com que lugares deixem de existir mesmo que estejamos de frente para ele. Veja, quase nunca o vemos. 
Raramente uma bondosa rede de televisão mostra a escalação do banco de reservas, mesmo o nome do técnico vem junto ao dos 
titulares. O que para mim parece coisa de maníaco: "Ô Fulano, diz aí o escrete do banco da Copa de 70!", definitivamente um 
absurdo. Um lugar do qual os homens comuns só se lembram das existência do técnico (o qual insistem em xingar durante o jogo: 
"BURRO! BURRO!"). Sim, porque o técnico assim como um bom jogador não pode errar. As noites pouco inspiradas a que me 
referia acima são mortais. Aliás, este é um dos pecados que não se pode cometer no futebol: o de ser mortal. Não! Não, 
companheiro, o jogador tem que se igualar à um Hércules, um Aquiles. Isso! no mínimo um semi-deus.  

Mas o que eu quero dizer é justamente o contrário, isto é, daqueles que vivem no Hades do futebol. Ali, tão perto da glória, da fama, 
da fortuna: o banco de reservas...  

Bem, depois desta introdução vamos então a partida, isto é, ao banco. Entram todos os jogadores e os titulares logo se diferenciam 
dos reservas pelo assédio dos repórteres. Então vemos uma pequena massa que se dirige mansa, com um sorriso no canto dos 
lábios. Sentam-se e se aconchegam em meio as toalhas e as bolsas de água. Alguém ensaia um sambinha e é dado o início à 
partida. O técnico lança um olhar furioso para o banco e ele imediatamente se calam, mas o silêncio dura pouco tempo, afinal, não 
é este um jogo de decisão. Alguém solta uma piadinha e todos riem. Bem, mas o jogo permanece monótono, com poucos lances. 
Depois dos trinta minutos do primeiro tempo os que ainda não dormiram lutam contra o sono tentando prestar atenção ao jogos.  

Graças à Deus, o juiz apita o final do primeiro tempo e os jogadores se levantam com as costas doendo e a sensação de não terem 
bunda. O meio-campo, que aliás é reserva do craque pensa: "Se o Fulano não machucar rápido não vou agüentar o sono." Lança um 
olhar de fúria para as costas do craque, que caminha lentamente, impedido pelos microfones e câmeras. O reserva passa a seu 
lado e ainda escuta: "... nós vamos me...". Seu cérebro se fecha. Chega finalmente ao túnel.  

Segundo tempo, vamos para o desenlace de mais uma "peleja" (principalmente para que está assistindo) do esporte bretão. Aquela 
leve dorzinha nas costas volta quando todos sentam. O técnico, num momento de delírio, pergunta para o banco: "Alguém tem um 
cigarro aí?...", enquanto todos lhe respondem com um olhar confuso: "Deixa p'ra lá...". Trinta minutos; o panorama da partida é o 
seguinte: o placar é 0X0, ninguém pressiona ninguém, a torcida começa a ir embora. Então o técnico da altura de seu tédio e com a 
garganta estourando de dor, lança um olhar significativo para o banco e todos saem desesperados: é hora do aquecimento. A 
qualquer momento poder ser dada a chance a qualquer um. Um momento fugaz de glória: "Entrei só para ganhar o bicho... mas 
quem sabem marcar o único gol da partida..."  

De repente, o juiz apita e o craque está lá, se contorcendo de dor no chão. Os olhos do meio-campo brilham, o técnico olha para o 
banco com uma pergunta no olhar: "Quem entra?...", o meio-campo acolhe aquele olhar respondendo: "Eu!...". Realmente o craque 
não terá condições de continuar. O coração do meio-campo palpita querendo explodir em seu peito. Um voz. Ele fecha os olhos e 
pensa ouvir seu nome. Mas algo está errado. Abre os olhos e vê o zagueiro caminhando em direção ao técnico. "É melhor manter o 
resultado, afinal estamos jogando fora de casa, não vale a pena arriscar."  

O jogador recebe as instruções, assina a sumula, enquanto os outros reservas caminham para o banco lentamente. O zagueiro 
caminha até a beirada do campo remoendo as instruções, o suficiente para repeti-las aos repórteres e esquecê-las no momento em 
que dá os três pulinhos para dar sorte, enquanto entra no campo.  

Termina a partida. Os jogadores tentam justificar a má atuação aos repórteres. Os poucos torcedores que se dignificaram em 
permanecer no estádio entoam um corinho: "TIMINHO! TIMINHO!".  

O senhor depois de ler isto ao final da partida vai se levantar com a cabeça vazia. Bem, amanhã será outro dia, só para abusar do 
lugar-comum. Quem sabe no próximo jogo... 

   
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