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Sarapatel dos Estetas
 
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Sarah, a loura
 
André Felipe Pinto Duarte
Belo Horizonte - M.G..
 
 
 
Crônicas Não digo que Sarah, a loura, tenha deixado escapar seu segredo por entre as pernas. Sarah, a loura, só não soube responder à pergunta, talvez porque não queria dizer "não" para mim. Por isso, suspendeu o juízo, acendeu um cigarro e disse: "São três horas e eu preciso ir embora." É, talvez eu fique mais um pouco, mesmo sabendo que Sarah foi para casa, mesmo sabendo que ela já não deve estar pensando em mim nestas alturas. Talvez eu fique; talvez me embriague e dê vazão a sentimentos de melancolia. E daí? Sarah não diria "não", mas ela também sabia que não deveria dizer "sim". Sim, talvez eu me embriague e esqueça as histórias contadas por ela; talvez esqueça-a também, daqui a meia hora. Daí a alguns instantes, Sarah não mais existirá. E quem mais existia ali além dela? Tento descobrir: falo algo sem importância a uma de suas colegas cujo nome não me lembro (nem se o perguntei), e ouço uma resposta que não  fica gravada na memória. Daqui a instantes não restará mais nada do que pensei ser esta noite além destas palavras escritas às pressas e que nada revelam.

Sarah, a loura, a única loura que encontrei no local, mesmo que artificialmente loura (tão falso o adjetivo, loura, quanto o nome, Sarah), antes de ir embora, disse-me: "Você pode até não acreditar em Deus, mas nunca, nunca, adore o  Diabo."  Eu respondi apenas um meio sorriso vago e desprovido de significado sem me preocupar em descobrir se deveria pensar mais sobre o assunto.

Melhor ir para algum outro lugar, encontrar pessoas que me facilitem a tarefa de esquecê-la e as suas palavras sobre Deus, Diabo e sobre o brilho de antigas estrelas já extintas que teima em viajar através do espaço. Mas já são quase quatro horas da manhã, em pleno meio da semana. De que me adiantariam os bares vinte e quatro horas agora? Se ao menos eu pudesse ver o céu daqui onde estou sentado, sem me importar se a noite está, ou não, nublada, será que serviria para alguma coisa?

Acender mais um cigarro, traçar mais algumas letras vacilantes sobre o papel e me certificar de que ainda falta algum tempo para a casa fechar, pedir mais uma bebida, tentar relembrar o rosto que já se confunde com os de outras mulheres e tudo isso é um trabalho vão, que irá se perder em algumas horas.

Talvez eu fique mais um pouco, talvez me embriague, pensando em suas últimas palavras (se o tempo der para tanto) e descubra algum sentido a ser apagado da memória enquanto caminho através das ruas e das sombras em direção à minha casa para me entregar a sonhos que podem, ou não, ser agradáveis.

   
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