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CRÔNICAS


"A morte é uma festa!"

André Felipe Pinto Duarte
Belo Horizonte/MG.


Certo dia, ouvi num noticiário que dez pubs londrinos, daqueles bem tradicionais, planejam oferecer um novo serviço no mercado gerado pela morte. O referido serviço consiste em, expressando o morto (com alguma antecedência, evidentemente) o desejo de que assim seja feito, ser o corpo e as cinzas depositadas numa urna funerária (até aqui não há novidade). E essa mesma urna contendo as cinzas do antigo cliente seria armazenada, ou exposta, no interior do próprio pub que o morto costumava freqüentar com seus amigos, acompanhada de uma placa convencional de lembranças eternas.

Qual seria o motivo gerador desta iniciativa que representa de maneira bastante expressiva o aspecto essencialmente tragicômico das nossas existências vãs? Sim, o dinheiro seria um motivo. Parece claro que os donos de pubs pretendam aumentar e manter uma frequesia constante ao tentar transformar seus estabelecimentos comerciais numa espécie de ser híbrido, meio templo báquico, meio funeral home". Mas a oferta de um produto ou serviço no mercado não deve considerar apenas o desejo do ofertante enriquecer. No outro lado da equação deve existir uma expectativa, anseio, necessidade prévia ou forjada pelo mercado e pelo consumo com as quais o produto ou serviço deve manter uma certa correspondência. Ou, como se costuma dizer: "deve-se buscar a satisfação do cliente". Neste caso, mesmo que ele já esteja morto. Qual é, então, a necessidade a ser satisfeita? O anseio do morto, enquanto vivo, de ser lembrado, celebrado e homenageado após sua passagem para o estado de inércia radical. O fim proposto por esta iniciativa não difere do dos demais cemitérios convencionais, a não ser por um atrativo sui generis que marca o tom da novidade.

Deixem-me explicar. A idéia consiste em modificar um pouco a tradição funerária de modo que uma outra tradição mais consistentemente praticada (essa relação serve também para a quase totalidade dos povos, mas estou tratando especificamente dos ingleses e seus pubs) a fortaleça e, de quebra, consiga gerar mais renda para os proprietários de pubs. Qual tradição? A da freqüência diária com que os ingleses visitam os pubs para tomar seus drinques e conversar fiado. Sem sombra de dúvida, as visitas aos pubs, são muito mais freqüentes e mais agradáveis que as visitas aos cemitérios. É desse modo que alguns ingleses pretendem impor suas presenças para serem lembrados e celebrados.

A iniciativa parece ter sido bem aceita por vários dentre os clientes potenciais deste novo tipo de serviço. Parece-me que falta somente o aval de uma entidade governamental que regula sobre os assuntos que dizem respeito aos costumes do povo inglês. Dentre estes assuntos, as atividades funerárias.

Se este serviço for efetivamente posto em prática (particularmente, não vejo por que não deveria), teríamos nesses pubs, todos os dias, momentos sublimes em que rodas de amigos e parentes bêbados de algum falecido inglês, agitando seus canecos de chope e seus copos de uísque, cantariam a uma só voz embargada pela emoção e pelo álcool: "he was a jolly good fellow; he was a jolly good fellow..."

Como diz o título do livro em que João José Reis estuda os ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (o contexto é outro, mas a frase aplica-se muito bem a este caso), "A morte é uma festa". "E ninguém pode negar, ninguém pode negar..."

OBS.: Texto originalmente publicado no jornal "O PLENÁRIO", 30/out.-15/nov. 1996, p. 2, Belo Horizonte.