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Sarapatel dos Estetas
 
http://sarapatel.cjb.net
 
 
O sangue do cordeiro
 
Érico Vieira Leão Pereira
Divinópolis- M.G..
 
 
Crônicas Pobre Dolly. Criatura redundante, terá algo a nos dizer com seus tímidos balidos, algo que já não saibamos? Dolly certamente não se sente diferente de si mesma, ou diferente da outra Dolly, a Dolly mãe no espelho, a doadora involuntária dos preciosos genes. O mundo não gira em torno de Dolly; gira em torno desses geniozinhos na garrafa, esses homúnculos, esses fantasmas da máquina que só sabem se duplicar e olhe lá, vez ou outra temos uma pequena mutação imprevista -- nada que vá, no entanto, mudar a ordem natural das coisas. Afinal, todo ser vivo quer se perpetuar, reproduzindo-se a torto e a direito, cumprindo o propósito universal de tudo o que existe para comer, cagar e trepar. O mundo vivo é tão redundante como a pobre Dolly: somos todos, afinal, ovelhinhas. 

Oh, mas aqui temos os homens maus de jaleco branco, os lobos em pele de cordeiro que querem se aproveitar das pobres ovelhinhas, desprezando seus direitos básicos, como os de serem autônomas e únicas. Não podemos ser usadas -- não podemos perder nossa preciosa identidade, nossa imagem roubada, multiplicada e deformada em uma miríade de espelhos. Como se já não bastasse que nós, ovelhinhas de primeiro grau, tenhamos que competir umas com as outras por um pouco de espaço! O mundo não é grande o suficiente para todos; de fato, ele é propriedade de quem chegar primeiro (ao topo da cadeia alimentar). Louvada ética, protegei-me das ovelhas desgarradas, das ovelhas negras! Que o direito de depredar o mundo, crescendo e nos multiplicando, seja todo nosso! 

Mas eis que os minúsculos genes riem de nós. Eventualmente surgirá um bode preto (ovinos, caprinos, qual a diferença? todos balem no final) que será adorado em sabás. E nós continuaremos pastando, tranquilas. Hmm... Talvez eu deva me tornar amigo dos genezinhos. Quem sabe? Talvez eu consiga um novo corpo, um novo eu, mais puro, livre de qualquer mácula original presente nesta velha e desgastada matriz. Talvez eu possa viver para sempre; talvez eu possa corrigir os meus erros passados, começar tudo de novo, do zero. Ou talvez seja simplesmente tarde demais para isso. 

Acho que vou pedir carne de carneiro no almoço. Um prato caro, imagino, mas cujo preço certamente honrará nossa querida Dolly.

 
  
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