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Sarapatel dos Estetas
 
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As crônicas de Gotzey I
 
André Felipe Pinto Duarte
Belo Horizonte - M. G..
andrefduarte@yahoo.com.br
 
 
 "Yilla'eh nhanná prakulli djombi"
 
 
Contos Certamente nossos sapientíssimos leitores já procuraram conhecer a incrível cultura dos povos pré-fetófagos que habitavam em distantes tempos ancestrais as construções cujos restos formam o sítio arqueológico de Al Benakor. É um lapso absurdo para todo aquele que envereda pelos caminhos do conhecimento não ter sequer ouvido falar desses povos e das ruínas descobertas em 1967 pelo arqueólogo inglês Sir Anthony Ivor e que têm mobilizado um enorme contingente de arqueólogos, paleontólogos, antropólogos e outros estudiosos num esforço conjunto e coordenado para elucidar parte da história desconhecida e repleta de mistérios de toda a região do vale do Baixo Nor. Toda esta região situa-se em um dos mais inóspitos e misteriosos territórios da face da Terra: os pântanos de Gotzey, tido por alguns também como um lugar repleto de forças mágicas de cujas origens não se tem notícias.

Pesquisas recentes revelaram ao público o fato de esses povos "primitivos" serem detentores de avançadas tecnologias em vários setores e também de um muito bem articulado sistema de escrita. Há consenso entre os estudiosos de todo o mundo sobre a transliteração dos caracteres cuneiformes utilizados por estes povos no intuito de registrarem seus vastos conhecimentos. No entanto, na questão da tradução e da significação das palavras formadas reina intensa divergência entre os lingüistas. Tomemos por exemplo a frase colocada como epígrafe a este texto: Yilla'eh nhanná prakulli djombi. Ela foi encontrada gravada em uma das colunas do pórtico de uma das oito vilas que formam o complexo arqueológico de Al Benakor e dá margem a diversas interpretações, tais como:

a) "Os seres lentos prolongam suas existências";

b) "Desde os tempos do Grande L'Um Dah(1) as mulheres ficam intranqüilas quando os homens vão beber Áici-Bã(2)";

c) "Abaixai vossas cabeças, vós que entrais" (algo como uma placa de advertência, pois o pórtico não tinha mais do que um metro e meio de altura);

d) "Passando por Urf-Ka, não deixe de visitar Xê Maklil(3)";

Há ainda a interpretação do transcendente alemão, prof. Johann Aftasarden, paleo-lingüista, filólogo e filósofo amador em seus tempos de folga, que se ufana por ter desenvolvido a tese que se segue. Segundo ele, o tempo haveria se encarregado de apagar um vocábulo que completaria o sentido da frase. Este vocábulo seria Nasr-Olthur, situado ao final da frase, confereindo-lhe o seguinte sentido:

e) "Demonstramos suficientemente na Estética Transcendental que tudo o que é intuído no espaço ou no tempo, portanto, todos os objetos de uma experiência possível para nós, não passam de fenômenos, isto é, meras representações, que, tal qual são representados, como entes extensos ou série de mudanças, não possuem uma existência fora de nossos pensamentos e fundada em si. Denomino este conceito doutrinal de idealismo transcendental. O realista no significado transcendental faz destas modificações de nossa sensibilidade coisas subsistentes em si, tratando, por conseguinte, meras representações como coisas em si mesmas [...]".

Interromperemos por aqui a citação para não tornarmos esse texto ainda mais enfadonho.

Leia-o novamente; vá à biblioteca mais próxima e compare-o com o texto da Seção Sexta da Antinomia da Razão Pura da Crítica da Razão Pura de Kant. Surpreso? Dissipe todas as suas dúvidas: faça a comparação mais uma vez. É isso mesmo. Há uma incrível semelhança entre os dois. Na verdade, são idênticos! Incrível também como toda esta seção relativa ao "Idealismo Transcendental como Chave para a Solução da Dialética Cosmológica" encontra-se condensada em apenas uma pequena frase. Segundo o prof. Aftasarden, a inscrição encontrada em Al Benakor insere pelo menos dois problemas fundamentais: 1) a Filosofia começou pelo menos dois milênios antes do aparecimento dos primeiros milesianos ociosos; 2) como Kant teve acesso aos conhecimentos perdidos dos benakorianos?

Por mais que sejam instigantes, estas perguntas, e muitas outras, não dizem respeito ao propósito original deste texto, ou seja, simplesmente o de servir como uma porta para os que ainda vagam pela ignorância de povo tão culto e importante para uma verdadeira compreensão da história da humanidade. É nosso dever tentar recuperar esta história. Muito mais ainda será descoberto pelas pesquisas em andamento e por outras que virão e todos os mistérios ainda encobertos serão revelados.
 



NOTAS

1. Antigo deus ou herói mítico venerado por estes povos. (Volta ao texto)

2. Áici-Bã é nada menos que a nossa conhecidíssima cerveja, cuja invenção, agora sabemos, fora erroneamente atribuída aos egípcios. (Volta ao texto)

3. Xê Maklil seria uma das figuras de mais autoridade dentro de cada vila; alguém venerado por todos e que reservava para si todos os poderes e atribuições de xamã e chef de cuisine. Esta conjunção de poderes era fundamental nas sociedades pré-fetófagas e, posteriormente, nas sociedades fetófagas do Baixo Nor. Isso se explica por estes povos guiarem-se por uma espécie de mística onívora e necromântica. (Volta ao texto)

  
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