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Sarapatel dos Estetas
 
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Marcelino, pão & vinho
 
Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior
Belo Horizonte - M. G..
 
Diálogo com a crônica Eu e o futebol, de Freddy Romano.
 
 
 

Contos

Ele fechava os olhos e se lembrava daquele dia, que passava como um filme: ele, Marcelino, estava com os demais alunos do colégio Marista, na aula de Educação Física. O professor Aristóteles obrigou-o a jogar. Marcelino relutava, não fazia milagres como o seu homônimo. Acabou entrando, como um cego das pernas. Olhou ao longe as montanhas da Serra do Curral: quarenta anos antes, quando chegou a Belo Horizonte, o escritor francês George Bernanos exclamou: "mas é uma cidade caída da lua!". Como se caísse da lua doutro planeta, caiu Marcelino ali no campo.

-- Passa pro Leonardo, seu lepra!!!

O rapaz era uma massa amorfa no campo, atirado no mundo, como cão sem osso, sem pão nem vinho. Seu ser simplesmente se agitava em meio aos outros corpos, com óculos de lentes grossas, boca dentuça. Sua presença ali incomodava, ansiavam por riscá-lo, fazê-lo encolher e sumir em frestas lodosas. Marcelino tinha pesadelos com a orientadora educacional gorda, terrores noturnos onde era comido por aquele colo guloso, devorador. No time de futebol, estava cercado de criaturas com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, todas inteiramente nuas por debaixo das roupas.

-- Vai! Vai! Marca o Marcelo!

A orientadora educacional Sulamita o achava estranho, pois chamou Marcelino para uma conversa em particular, perguntou sobre sua família, queria saber por que era tão calado. Ora, a razão é escrava das paixões: Ciro, imperador persa, foi comido debaixo da escada, ritual antropofágico como a última ceia onde o apóstolo comeu o corpo de Cristo e bebeu sangue. O barqueiro Caronte, encarregado de levar as almas para a Ilha dos Mortos, surgiu à porta do inferno, viu as duas almas e riu, gargalhou... Marcelino era um cordeiro desgarrado, decidira se confessar num diário inspirado por uma citação de Confiteor, de Paulo Setúbal, na aula de Moral e Cívica. Um dia viu um louco nu, saindo pela rua, em frente à livraria, gritando no surto: "vocês me fazem comer réptil!!". Marcelino gostara da cena do Quarup, de Rui Guerra, em que Cláudia Raia deu prum índio descolado. Nas escadas da noite, Marcelino tateou o sexo da menina: levou da mão para a boca, sentiu gosto de limão. Naquela época ele pensava que a letra de Luiz Gonzaga era assim: "Vem cá, cintura fina, cintura de limão, cintura de menina, vem cá, meu coração..." Propôs para Gislaine, a menina do sexo sabor limão, a brincadeira de casinha. Gislaine tinha uma noção restrita do que faziam marido e mulher e não propôs nada mais instigante. A menina fantasiou que tinham uma filha. Faltava algo para comer em casa, Gislaine lhe disse para ser o provedor. Marcelino sugeriu que comessem a própria filha, passo que resultou na sua expulsão imediata da brincadeira, após o que, quem sabe, a garota interpretou um monólogo sobre a viuvez.

Marcelino também comeu o réptil, também a pérola lhe foi ofertada. Ela rolou e ele se recordou de um gol alegre que fizera em outros tempos, um tempo distante que pareceu se esticar até aquela ventosa ali girando. Chutou, e a bola bastarda estufou o véu da noiva. Ele vibrou de alegria, redimido de anos de humilhação. Anjos tocavam frenéticos, foguetes espoucavam na sua cabeça oca. Foi como se despencasse para o fogo tal um anjo caído, tal qual um Lúcifer num casamento do céu com o inferno, com as palavras ditas por incendiários de dedos em brasa:

-- Foi contra! COOONTRA!!!

Houve também uma bolada no primário, que acertou o olho dele, a dor e os gritos de desespero ecoaram, aquela bola voltou como de um corredor polonês, direto para sua cara, uma chicotada redonda do polvo que um dia abraçou o Nautillus de Júlio Verne, uma bicada de galinha defendendo a ninhada, uma unhada de cachorro em torno da mangueira, tudo se repetindo, o chão se desmanchando, derretendo, um chão de geléia mofada onde Marcelino se afundava em pão, vinho, lama, merda e sangue. Logo depois o tiraram do jogo, Aristóteles fora derrotado em seu gesto ilógico.

Ao subir na arquibancada, o horror, foi como se o abismo se reabrisse, agora dentro do peito, cavando uma mina escura e funda por onde entrava de repente o trem de sua vida, como se pérolas, por obra de um mágico, lhe saíssem pródigas da barriga: o pai vira tudo! A dor chegava a ser indolor, era tão avassaladora que lhe apagava a mente. O  pai estava mais próximo do riso, o que fazia a dor se multiplicar por mil feridas, como se bocas com dentes se abrissem em suas mãos, em seus pés, sentou-se aos pés do pai como um Cristo dentuço e de óculos, no qual os olhos e os dentes subitamente se alastrassem pelo corpo leproso. O pai nada disse, emitiu palavras que não chegaram às ostras que as orelhas de Marcelino tinham se tornado e levou dali aquele zumbi, como se levasse embora uma semente estéril, caída em meio aos cactos.

   
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