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CONTOS


Amanhã será um lindo dia

Roberley Antônio
Brasília
Brasil
roberley@usa.net


Já se passava das 23h30 e o olhar frio daquele quadro de certa forma a confortava. A inexpressividade daquele olhar, por fim era revelada. Tanta vida e tantas ambições contidas num único segundo, retratado de modo suave, com traços leves e definidos. Um momento que ficara, para sempre, na memória de todos.

Na lareira, os pequenos pedaços de madeira estalavam, emitindo uma luz cintilante e clara. O calor era confortável. Próximo às janelas, o vento uivava, anunciando o outono. O outono mais gelado dos últimos 30 anos. “O inverno fora de hora”, diziam os mais afoitos.

Por onde ela andava, o olhar a seguia. Mas não a incomodava. Pelo contrário. Isso a fazia suportar a imensa dor que sentia. Nada seria pior. “Nada!”, sussurra.

“Tenho que pensar na pequena Susan...”

Sim, a pequena Susan. Ela dorme tranqüila em seu quarto. Não faz nem uma semana que completara cinco anos. Está deitada, abraçando seu último presente, um coelho de pelúcia, dado por Derick, seu irmão...

[[Trimmm]]

O som do telefone a assusta. Estava um pouco afastada dele, mas em frações de segundos, já atendia a ligação.

- Mamãe?

Seus olhos enchem de lágrimas. Deixa-se cair por sobre a poltrona, junto à lareira. A voz não acha a entoação correta.

- Mamãe, sou eu, Derick. Tudo bem?

- Ah! Meu filho...

Fazia um esforço imenso para com que a voz saísse. Era uma luta desleal e estava perdendo.

- Mamãe, eu fiquei sabendo pelo papai que você está sofrendo muito. Não quero isso. Você vai ver. Logo essa dor vai passar, eu prometo. Você tem que ter fé nas coisas.

- Como você está, meu filho? – enfim, uma frase completa.

- Isso não importa mais, mamãe. O que importa é a senhora. Não quero essa tristeza para sua vida.

- Não fala assim, filho! Seu pai disse que você vai ficar bom. É só uma doença passageira. Ele conversou com os médicos ontem...

- Mamãe, ele sabe apenas o que eu quis que soubesse. Eu falei com os médicos para que dissessem isso. Há três dias tive a confirmação do que tenho. Não é passageiro. Eu menti para o papai. Ele já sofreu demais. Merece descansar um pouco. A senhora é mais forte do que ele... sempre foi...

A luz da lareira começava a diminuir. Ninguém se importava. Nas noites de sábado, antes de Susan nascer, Derick e seus pais reuniam-se para assar castanhas e ouvir histórias de terror, contadas pela mãe ou pelo pai. Na verdade, as histórias do pai eram mais emocionantes. Além da sonoplastia. As coisas iam acontecendo com os personagens fictícios e, para dar mais emoção, ele assustava-os, empurrando-os, fazendo cócegas etc. Não havia nada melhor naquela família quanto as noites de sábado, extintas há meses, devido à doença de Derick.

- Mamãe, meu tempo está acabando. Tenho tanta coisa pra falar... quero pedir desculpas. Não fui o médico que queria que eu fosse. Não joguei xadrez tão bem quanto papai queria. Não mereço a Maryen. Ela é maravilhosa.

Era impossível para ela falar no momento. O que importa agora? Ser médico, jogar xadrez, manter um noivado? Como os valores mudam quando muda a situação. O que sempre sonhou para o filho era a medicina e uma boa esposa. Agora, o que sonha não é nada mais importante, nada mais do que um direito universal: a vida.

- E a pequena Susan? Aquele anjo deve estar dormindo agora. Sabe, mamãe, ela me disse para eu não ter medo. “Pessoas boas não devem ter medo”. Sua voz ainda ecoa nos meus ouvidos. Beije ela por mim hoje, ok?

- Meu filho, você vai ficar bem. Eu sei. Não faz isso comigo...

- Eu gostaria que você doasse todas as minhas coisas para um orfanato. – Dereck ignora os comentários de sua mãe. – Só guarde aquele quadro horroroso que a senhora mantém ai na sala. – tenta sorrir. Não consegue.

Ela começa a tremer. Não sabe se é o nervosismo ou o frio. “A lareira precisa ser alimentada”, pensa. Mas, não importa no momento.

- Meu tempo se esgotou. Estou cansado. Tenho que ir.

- Você tem que descansar, meu filho. Está fraco. Mas eu não queria parar de falar com você. Eu queria muito ter ido até o hospital, mas não tinha com quem deixar a Susan e você não quis que eu a levasse. Queria estar ai, com você. Sei que precisa de mim.

O choro é quase uma realidade. Mas ela sabe que se se entregar seria pior.

- Mamãe, a senhora já olhou a lua hoje? Ela está saindo da fase de nova... ela está sorrindo... vai lá, dê uma olhada...

- Meu filho...

- Ela está sorrindo... amanhã será um lindo dia...

Os olhos dela se fecham. A ligação terminou. Num segundo depois, ela se assusta com o telefone tocando.

Atende o mais rápido o possível. Era do hospital e era seu marido. A notícia seu coração já sabia. Não queria pensar. Ficou ouvindo por muito tempo, até que a conversa fosse abafada pelos longos soluços do pai de Derick.

Depois que consegue formar palavras, ele fala para ela que Derick disse que a amava muito e que não era para ficar triste com isso porque ele agora iria descansar...

- Eu sei... ele me ligou agora mesmo... ele parecia tão seguro...

- Como? Ele te ligou agora mesmo?? Quanto tempo faz?

- Cerca de dez minutos...

- Meu bem... isso não é possível... ele faleceu há mais de duas horas... eu também queria que ele estivesse aqui, conosco... meu filho... meu...

Ela desliga o telefone sem se despedir. Olha para lareira e vê o fogo, quase extinto, tentando iluminar a escuridão que começa a se intensificar.

Levanta-se e vai até próximo à janela. Abre. O vento balança fortemente seus cabelos. O fogo recua mais ainda. Respira bem fundo o ar gélido de outono. Fecha os olhos por alguns instantes. Deixa seu corpo absorver toda a essência noturna. Abre os olhos. Repara nas árvores, nuas, uivarem e contorcerem levemente, forçadas pela imponente força do vento. Olha para cima...

- A lua... ela está sorrindo mesmo... um sorriso que não se iguala ao seu... amanhã será um lindo dia...

Fim

Roberley Antonio
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