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Sarapatel dos Estetas
 
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Eu e o futebol
 
Fredy Romano
São Paulo
 
 
Ver também o conto Marcelino, pão & vinho, de Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior, em diálogo com esta crônica.
 
 
Crônicas Dizem que o templo do futebol é Wembley. A Inglaterra tem esse título devido ao invento do futebol. Cá pra nós, se existe um templo para o futebol, esse templo é aqui, no Brasil. Assistindo à vídeo tapes, qual brasileiro nunca ficou torcendo para aquele chute de Pelé, após a finta de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewicz,  estufasse a rede na semifinal da Copa de 70? Ou então, desejar que o goleiro Carlos pule para o outro lado na disputa de pênaltis contra a França na Copa de 86?  

Há três semanas do ocorrido no Morumbi, na  final do Paulistão 99, a polêmica continua. Ontem mesmo, passando por um botequim, vi quatro ou  cinco pessoas se exaltando, a favor e contra as embaixadas de Edilson. Logo depois, concordavam e brindavam com o futebol moleque da revelação do momento, Ronaldinho. E discordavam como ele deve ser chamado: Ronaldinho, Ronaldo Gaúcho ou Ronaldinho Gaúcho? Até nome de craques cria discussão no país canarinho. 

Os desacordos em torno do esporte popular do Brasil, me faz voltar a infância e lembrar quando foi meu primeiro contato com a bola. No ventre de minha mãe, os primeiros sons sobre futebol talvez tenha sido a discussão entre meu pai são paulino e meus tios palmeirenses, a respeito do início do brasileiro de 73 onde o tricolor perderia para o alviverde. O brinquedo preferido não podia deixar de ser a bola. Não sabendo andar direito, empregava meus primeiros chutes. O primeiro livro a emocionar, foi sobre o confronto entre dois times rivais em "A Vingança do Timão" de Carlos Moraes. 

Futebol, bola, pelada. Contras. Como eram bons os contras. Quem nunca jogou um contra? No passar da infância e adolescência festas, garotas, estudos e tarefas eram trocados pela peleja. Minha mãe que o diga. E quantos namoricos perdi. Contras. Chamávamos de contra as partidas entre ruas. Eram acalorados. Rixa de rua. Nosso maior adversário era o time da Rua Silvio de Moura, rua perpendicular à nossa no bairro de Parada Inglesa, zona norte de São Paulo. 

Era final da década de 80. Garotos de 13 a 18 anos. Não existia e ainda não existe campo de futebol. Jogar bola é na rua, quadras alugadas - onde era caro ou no clube, quando esperava-se uma eternidade para chegar nossa vez. Nada era comparável com a rua. Então, os duelos se davam na "casa" do adversário. Rua asfaltada e plana. Várias partidas marcadas e perdidas. Tínhamos um bom time, mas o deles, era melhor. Lembro bem de nossas derrotas. Eles tinham o Diogo, o Neguinho e o Portuga. O Neguinho era o mais perigoso. Pegava a bola e fazia firula. Parava quando batia forte para o gol e corria para o abraço. Difícil era intragar a gozação. 

Num sábado, Pelé que não é o jogador mas o mecânico do bairro, organiza um torneio. Torneio de ruas. As quatro ruas que formam nosso quarteirão. A empolgação tomou conta. Grande chance de ganhar da velha Silvio. Um dia só. Por sermos os mais velhos, eu e o Doinho éramos uma espécie de organizadores do time. Saímos em disparada para organizar o time.  

Era formado pelo Pig, um baixinho, magrinho com um domínio de bola fenomenal. Corria muito. Nosso atacante. O Ratão, meio gordo, meio desengonçado, meio rato, meio jogador. Ele e o Doinho (tinha esse apelido porque parecia um amendoim) faziam o nosso meio-de-rua. A dupla Edu e Luciano eram irmãos. Brigavam feito loucos e faziam nossa zaga. Duda e Kraus, os pernas-de-pau. Entravam quando dava em qualquer lugar. Eu, o goleiro.  

Semifinal. Não lembro de quem ganhamos. A Silvio pegou o outro time. Nos encontramos na final. O jogo começa. Duríssimo. Pela primeira vez, não levamos gol no início. A garra era tanta que as faltas vinham com naturalidade. Faltando um minuto para o final do primeiro tempo, Neguinho rouba a bola de Ratão e bate forte. Consigo espalmar e a bola sobra para Portuga fazer um a zero. Festa deles.  

Na virada de campo, não existe descanso na rua, o bate boca entre nós foi inevitável. Talvez tenha sido a discussão mais produtiva que já vi. Acertamos os detalhes. Começa a segunda etapa e a pressão é toda nossa. Nosso time vai chegando e apertando. Os vinte minutos restantes foi pressão. Quando o jogo estava para acabar, novamente Neguinho rouba e bola, passa por Edu e Luciano e me encara na frente do gol. Chuta rasteiro e no canto. Tentei e não consegui resvalar. Gol deles. Gol do título.  

Dez anos depois, alguns amigos desapareceram. Com outros, jogo peladas lembrando os velhos tempos. Na mesa do bar depois da brincadeira, surge alguém para lembrar aquele jogo. Apesar de não ganharmos, valeu o esforço. A garra. O futebol é emocionante por isso. A razão da paixão brasileira pela bola. Minha também. 

 Ver também o conto Marcelino, pão & vinho, de Lúcio Emílio do Espírito Santo Júnior, em diálogo com esta crônica.
   
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